sábado, 13 de junho de 2009

“O Barão de Lavos”





Editora: Livraria Chardron (1ª e 2ª edição)

Autor: Abel Botelho
Abel Acácio de Almeida Botelho nasceu em Tabuaço, no dia 23 de Setembro de 1855. Durante sua vida foi militar e diplomata português, porém formou-se como medico e destacou-se como escritor.
No exército passou o percurso desde o soldado raso até ao coronel. Pertenceu a várias agremiações como Academia das Ciências, Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, de Lisboa e do Porto, Associação da Imprensa, Sociedade Geográfica de Lisboa, entre outras.
Como escritor representou Portugal do realismo extremo, de uma maneira Naturalista, sem atenuar a realidade. Em 1891 iniciou a séria da Pathologia Social[AS1] , na qual analisava com a precisão e perspicuidade os males que afectavam Portugal e, nomeadamente, Lisboa.
Abel Botelho morreu na Argentina, no ano 1917, provavelmente no dia 24 de Abril, durante Primeira Guerra Mundial.


Resumo:
O romance foi escrito pelo Abel Botelho e publicado em 1891. É o primeiro livro da série Pathologia Social que trata de um tema relacionado com a sociedade e as patologias sociais, neste caso “O Barão de Lavos” levanta o tema da homossexualidade.
A história começa em 1869, D. Sebastião, conhecido como Barão de Lavos, é um membro da alta sociedade que apesar de ter uma esposa, Elvira, tem um lado antagónico, quase animal. Este lado oposto da sua vida caracteriza-se pela obsessão patológica pelos jovens. No entanto, apesar a sua paixão sindromática o Barão de Lavos não é criticado nem expulso da alta sociedade, embora as suas preferências não são muito subtis. A sua queda moral e social começa quando ele apaixona-se por um jovem de dezasseis anos, Eugénio. O rapaz começa explorar o barão economicamente e entra na sociedade a qual o barão pertence. Passando algum tempo, Eugénio e Elvira tornam-se amantes e quando o D. Sebastião descobre a traição não consegue voltar a vida normal.
Gradualmente, o Barão de Lavos perde o seu estatuto, económico e social. No final da sua vida ele encontra-se praticamente na miséria, sustentado por poucos amigos, é uma pessoa sem moralidade e dignidade humana. A história acaba com a morte do Barão de Lavos, infâmia e violenta.

Selecção de um texto
“As leis morais são as regras de um jogo no qual todos fazem batota, e isto desde que o mundo é mundo.”[AS2]
Jean Cocteau

Excerto do livro:
“Poder de resistência nenhum. Escravo da cacochymia ingénita, ia trupando cegamente na cauda dos seus instintos. Sentia a alma amaurotica, deprimindo o coração, os nervos despolarisados.
De principio, antes de conhecer Eugénio, estas predilecções antinaturnes tinham de ordinário uma acção toda exterior e uma duração ephemera. …
…Assim, se a coisa era possível, o móvel, o objecto de arte era comprado: o ephebo cedia ao suborno, ao lenocínio, nos mais baixos meios de sedução. “

Comentário:

O Barão de Lavos é o primeiro livro da série Pathologia Social escrita pelo Abel Botelho. É um livro polémico, pois retrata a sociedade contemporânea tal como ela é, com todos os seus defeitos e injustiças. Visto que hoje em dia a homossexualidade já não é considerada uma doença e é socialmente aceite em vários países, o livro é visto com perspectiva e releva aspectos da vida social que até são mais graves e que demonstram a decadência moral das pessoas.
A história começa em 1869, em Lisboa. Portugal do século XIX é representado por uma cidade e nesta representação o escritor consegue resumir os aspectos mais relevantes da vida do século XIX. A sociedade é subdividida em classes, umas privilegiadas e outras exploradas. A alta burguesia e nobreza têm uma vida luxuosa, formando alta sociedade. Esta harmonia contrasta com a infausta existência dos mais pobres e desfavorecidos que são explorados e rebaixados, estas pessoas pertencem a classe de proletariado ou até as mais baixos estatutos sociais, tal como prostitutas ou sem-abrigo.
O autor analisa a sociedade contemporânea com a precisão de um médico. Todas as patologias sociais são expostas com uma objectividade extrema que leva o leitor a uma crítica e reflexão sobre as normas sociais e a hipocrisia. Baseando-se no livro podemos verificar que a maneira como o autor escreve está interligada com a sua carreira profissional, pois ele foi médico e nos seus livros aparecem marcas características tanto na linguagem, quando ele utiliza palavras como “sindroma” ou “patologia”, como na maneira de expor a história, para o autor tudo tem uma causa e a decadência moral das pessoas é vista como uma patologia. A ideia de causalidade necessária aparece na discrição da “paixão sindromática” do Barão de Lavos, pois o autor explica que ele é de uma família cujo antepassado foi o filho ilegítimo de um rei. Assim, a imoralidade da personagem deriva do seu passado e não aparece por acaso.
Como já foi referido, o livro é uma espécie de crítica social que expõe à superfície todos os defeitos que a nossa sociedade tem, mas esconde por baixo da mascara de hipocrisia. Ao longo do livro percebemos que muitas personagens não são inocentes, mas pelo contrário, iniciaram uma certa decadência moral. O Barão de Lavos, D. Sebastião, é o caso mais flagrante – um homossexual (ou bissexual), sedutor que não controla os seus vícios e paixões animais, no final do livro é totalmente arruinado como personalidade, perdendo seu estatuto social e económico, o que o leva a roubar dinheiro ao seu amigo. A sua esposa, D. Elvira, que acaba por trair o seu marido. O Eugénio, que não só vende o seu corpo, mas também roubou no passado e explora o Barão economicamente para sustentar sua amante. E por último, toda a sociedade, que apesar conhecer o vício do Barão aceita-o enquanto ele é útil, mas acaba por ignora-lo quando ele perde o seu capital. A sociedade releva toda a sua hipocrisia e a maneira mesquinha de ser, as normas morais parecem ser muito relativas, pois quem tem dinheiro não é obrigado a cumpri-las.
A sociedade não aceita facilmente as diferenças. Assim, a homossexualidade era considerada uma doença até ao ano 1987, quando a organização mundial de saúde retirou-a da lista de doenças e patologias. No entanto, a sociedade importa-se mais com o aspecto económico e não com aquilo que as pessoas são efectivamente.
As normas sociais e morais são efectivamente muito relativas, pois variam de sociedade para a sociedade e consoante a época. Relembrando, a homossexualidade na Grécia Antiga era uma prática social considerada normal e, por vezes, preferível ao amor entre homem e mulher. Hoje em dia há países onde os homossexuais podem casar-se, pois tal atitude é socialmente aceite, mas em muitos países árabes as práticas homossexuais são puníveis pela lei.
Comparando a sociedade do século XIX e a sociedade do século XXI parece que todo o avanço tecnológico e científico não alterou efectivamente nada, pois, a sociedade capitalista e consumista preocupa-se em primeiro lugar com os benefícios económicos. A pobreza, a imoralidade e a hipocrisia são únicas características que não se alteram, infelizmente. Nesta perspectiva, a obra apresenta uma intemporalidade, pois tudo se altera menos a mente das pessoas.
Deve-se notar que o autor utiliza uma linguagem muito elaborada e a maneira como ele escreveu torna o livro muito agradável para a leitura. As descrições que o autor faz são muito pormenorizadas e reais. As personagens também foram cuidadosamente elaboradas e desenvolvidas. Podemos concluir que não são personagens planas como as personagens tipo de Gil Vicente, desenvolvem-se e modificam-se, embora representam os pecados e a amoralidade da sociedade. O estatuto e a educação do Barão de Lavos contradizem com a sua paixão sindromática e o sentimento estético pervertido. Parece que é um homem que se transforma num animal controlado pelos seus vícios e instintos. Todas as personagem ilustram a natureza contraditória e animal do Homem, todos respeitam as normas morais enquanto é do seu interesse, mas quebram-nas quando é lhes favorável, demonstrando o espírito de amoralismo.
Deste modo, a obra leva o leitor a uma reflexão sobre a sociedade e a natureza humana. É um apelo à consciência humana. Pessoalmente, recomendo a leitura desta obra, pois apresenta uma crítica social muito profunda, sendo quase uma reflexão filosofica.

Anastasiya Strembitska



[AS1]
Ø 1891 - O Barão de Lavos
Ø 1898 - O Livro de Alda
Ø 1901 - Amanhã
Ø 1907 - Fatal Dilema
Ø 1910 - Próspero Fortuna



[AS2]As regras morais são normas que a sociedade institui. No entanto, nem sempre todos respeitam estas normas, pois a própria natureza do ser humano leva o Homem quebrar as regras. Os seus instintos, desejos e ilusões, frequentemente, sobrepõem-se à moral. Isto leva ao desenvolvimento da hipocrisia, pois a queda moral afecta não só os que quebram as normas, mas também aqueles que o deixam fazer ou fecham os olhos perante a imoralidade. Em última análise a sociedade degrada devido à conivência dos humanos que ignoram a imoralidade. Assim, o efeito da hipocrisia é a degradação moral, é o processo da pathologia social que gera um ciclo fechado onde o efeito amplia a causa.

sábado, 28 de março de 2009

Geração Blogue. Analise do Livro

“Geração Blogue”


Editora: Editorial Presença

Autor: Giuseppe Granieri
Giuseppe Granieri, um dos maiores especialistas italianos de comunicações e cultura digital. Durante muitos anos escreve sobre tecnologia e sociedade. Actualmente colabora como jornalista com diversas publicações do sector, entre as quais a Internet Pro, Internet News e Il Sole 24 Ore - @lfa. O escritor é bastante conhecido na blogosfera, onde escreve posts com frequência.

Resumo:
O livro aborda um tema bastante interessante que surgiu recentemente com o desenvolvimento colossal da Internet – os blogues.
O que é um blog? Qual é a sua utilidade? Como é que influencia o nosso mundo? São tudo perguntas às quais o autor tenta responder de modo a alertar o público para uma série de alterações que ocorrem à nossa volta. Os blogues têm um papel significativo na nossa comunicação, pois são um meio acessível a cada um de nós que nos permite expor a nossa opinião e efectuar um intercâmbio de informação sem sofrer de influências políticas, religiosas, entre outras.
O autor analisa outros temas ligados à “blogosfera”, como é o caso do “super Google” e do sistema político em que nós existimos, a chamada “democracia[AS1] ”…

Selecção de um texto
"A força desencadeada pelo átomo transformou tudo menos nossa forma de pensar. Por isso caminhamos para uma catástrofe sem igual".[AS2]
Albert Einstain

Excerto do livro:
“Os cidadãos dos países mais avançados não sabem muito do que acontece à sua volta. Têm mais sorte do que os antigos e certamente estão mais informados do que os seus contemporâneos do Terceiro Mundo. Contudo, vivem e participam na democracia através de “representação da realidade” bastante parcial.”




Comentário:


"Armas silenciosas para guerra tranquilas"[AS3]


Meios de comunicação – o império de imagens, sons, metáforas, informação e de manipulação de opinião pública. No mundo da democracia é difícil instalar uma tirania subtil, mas esta ditadura existe… Para dominar o povo devemos prometer-lhe liberdade e se os cidadãos acreditam que são livres nas suas escolhas, actos e nas suas mentes a tirania atinge o auge da sua eficácia. Os meios de comunicação são as portas para as mentes das pessoas, a sua função é informar e a partir desta informação as pessoas formam a sua opinião, mas se derrubar os factos conseguimos alterar a concepção do mundo da maior parte de população. O que acontece é que os meios de informação são frequentemente subjectivos e tendenciosos.
No ambiente de globalização mundial, o produto mais valioso é a informação, quem controla a informação controla tudo. Neste mundo, os canais televisivos são ferramentas de manipulação de governos e, por sua vez, os políticos são marionetes de “grandes senhores”. Estes homens governam este mundo, efectivamente. Têm um poder económico colossal e toda vida política, económica e militar do planeta não passa de um “Grande Jogo” de um grupinho restrito de seres humanos. Por exemplo, a Revolução de 1910 tinha como os principais ideólogos e apoiantes duas organizações secretas (Maçonaria e Carbonaria), desde 1935 até a actualidade o símbolo da Maçonaria encontra-se gravado na moeda de E.U.A.. Tudo isso leva a crer que existem forças que nos controlam. O livro”Geração Blogue” refere o caso de motores de busca, como o Google e Yahoo, que guardam a informação sobre todas as pesquisas que nós fazemos no dia-a-dia. A posterior utilização desta informação é o assunto que não podemos controlar e que nos transcende completamente. O cartão de crédito, um objecto tão útil e tão comum, mas não passa pela cabeça de nenhum utilizador de multibanco que assim que ele utiliza o seu cartão de credito toda sua informação pessoal fica quadrada num super-computados de Serviços de Segurança dos E.U.A..
Nestas condições, um indivíduo é controlado e manipulado. Todo a nossa “liberdade” é uma ilusão que acaba por capturar cada um de nós. A maioria dos conflitos, revoluções e reformas não são declaradas. Nós agimos conforme fomos ensinados, somos apenas meios para certas pessoas ou organizações atingirem os seus objectivos. A opinião pública é manipulada pelos meios de comunicação e aqueles que estão contra acabam por ser esquecidos. As pessoas que são contra o regime sempre foram perseguidas. Antigamente, a maioria dos opositores desistiam das suas ideias ou acabavam a vida na guilhotina, no século XX eram eliminadas fisicamente, mas na actualidade a forma mais eficaz de fazer esquecer “as vozes antagonistas” é fazer não acreditar. Mesmo as pessoas reconhecidas podem ser levadas ao mais ridículo, culpadas de crimes mais amorais ou, simplesmente, proibidas de aparecer na televisão, rádio, etc.. Para afastar o público de problemas globais são criados outros problemas sintéticos de pouca relevância mas que acabam de parecer as catástrofes colossais depois de uma intensa divulgação. Existem teorias que afirmam que o atentado de 11 de Setembro e a Guerra de Iraque foram provocados por serviços de segurança de EUA para afastar a atenção pública para problemas económicas que oito anos mais tarde transformaram-se numa crise económica e financeira mundial. É curial dizer que o documentário que analisava os acontecimentos de 11 de Setembro e que referiu alguns factos desfavoráveis a reputação de presidente Bush foi proibido nos EUA ao nível federal.
Quando um simples indivíduo critica o Estado este não se sente minimamente ameaçado, pois a divulgação de opinião pessoas é extremamente difícil se recorrermos aos canais televisivos. Nestas condições, o desenvolvimento tecnológico e a expansão de Internet é maná para maioria de pessoas. Os blogs são um produto de interacção da cultura e tecnologia. A Internet é o único meio de comunicação que não pode ser sujeito à censura total, blogs são uma possibilidade real e acessível a todos de exprimir a sua opinião pessoal. O intercâmbio de informação sob a forma de opiniões, impressões, experiências e factos acelera o desenvolvimento da inteligência colectiva. Cada um de nós possui nas suas mãos uma ferramenta para mudar o mundo a sua volta. Acredito que é possível alterar parcialmente a nossa realidade, a única condição é ter um pensamento criativo que limita o controlo sobre o indivíduo e não hesitar na decisão.Neste perspectiva o livro “Geração Blogue” fornece um breve, mas bastante informativo esclarecimento sobre o fenómeno conhecido como blogs. O seu objectivo é informar e alertar o leitor. De facto, o desenvolvimento tecnológico altera tudo, mas não é capaz de mudar a nossa forma de pensar o que pode levar-nos a uma catástrofe sem igual. A informação pode ser a cura da ignorância ou uma arma silenciosa numa guerra imperceptível. Neste momento não me parece que somos livres nas nossas escolhas, mas como seres potencialmente racionais podemos conquistar a liberdade. Essa conquista não requer um esforço militar, mas sim um esforço mental colectivo.

[AS1]O autor considera a democracia o sistema governamental mais justo, entretanto aponta para uma deturpação de ideais democráticos realizada pelos políticos o que provoca um funcionamento deficiente do sistema e prejudica os direitos de indivíduos.

[AS2]O nível de conhecimento científico tem vindo a aumentar, mas isso não influencia o nosso nível de consciência colectiva e de sabedoria. Actualmente, continuamos a praticar uma política de auto-destruição utilizando a maioria de descobertas cientificas como meios de agressão militar.

[AS3]Existe um livro que aborda o tema de manipulação de população através da linguagem utilizada nos meios de comunicação

Anastasiya Strembitska

Fevereiro/Março de 2009

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O meu ser



A miséria do meu ser,

Do ser que tenho a viver,

Tornou-se uma coisa vista.

Sou nesta vida um qualquer

Que roda fora da pista.


Ninguém conhece quem sou

Nem eu mesmo me conheço

E, se me conheço, esqueço,

Porque não vivo onde estou.

Rodo, e o meu rodar apresso.


É uma carreira invisível,

Salvo onde caio e sou visto,

Porque cair é sensível

Pelo ruído imprevisto...

Sou assim. Mas isto é crível?


Fernando Pessoa

Selecção genética



Hoje em dia é frequente ver notícias sobre avanços de genética. Ninguém fica surpreendido quando os cientistas mostram ao grande público os últimos resultados das suas experiências, primeiro foi uma ovelha chamada Dolly, agora já aparecem clones de cães, gatos, entre outros. No futuro mais próximo pode surgir clone de um mamute e, certamente, isso não é o limite de possibilidades da genética. Já existem laboratórios que investigam as doenças genéticas, o genoma humano já foi descodificado e a reprodução in vitro é uma realidade.
Por um lado, os avanços da Genética fornecem conhecimentos importantíssimos que se aplicam na medicina. O diagnóstico e o tratamento das doenças são facilitados. Obviamente, muitos dos cidadãos apoiam a genética, embora já ouve um período quando genética foi proibida em países de URSS, os católicos também não a apoiavam, até as sociedades mais liberais limitavam as áreas de investigação genética. Todavia, a engenharia genética levanta grande polémica entre especialistas, pessoas religiosas e população, pois a genética enfrenta problemas éticos e morais. Por exemplo, a clonagem dos humanos e a eugenia são problemas bioéticos.
Assim, graças aos avanços científicos, na primeira semana deste ano nasceu a primeira bebé britânica seleccionada para não carregar um dos genes que predispõe o desenvolvimento do cancro da mama e do útero.
“A criança tinha entre 50 e 80 por cento de hipóteses de contrair cancro da mama e até 60% de probabilidades de ter cancro do útero. Doenças que afectaram grande parte da família do pai, devido à presença de um gene mutante, o BRCA1. Os pais da criança consultaram médicos de fertilidade e acabaram por aceitar que a bebé fosse sujeita a uma selecção genética, que deverá impedir que a criança tenha cancro devido à mutação do gene. “
SIC, 14 de Janeiro de 2009
Este acontecimento levou a uma grande discussão polémica na sociedade ocidental. A reacção da Igreja católica foi imediata, A Academia Pontifícia para a vida considerou a selecção genética uma acção “grave e ilícita”. De facto a Igreja nunca aceitou qualquer tipo de intervenção genética com o fim de alterar os processos naturais, isso é, a clonagem, engenharia genética e selecção genética são considerados actos imorais e que não respeitam a fé católica. Do ponto de vista da Igreja selecção genética dos embriões que não apresentam genes que provocam o desenvolvimento de uma doença é uma atitude tão graves como o aborto e a eutanásia, pois provocam morte de um ser humano vivo e inocente. Os embriões nos primeiros estádios do seu desenvolvimento passam por um diagnóstico genético durante o qual são evidenciados os genes malignos. O embrião que não é portador destes genes é seleccionada para a implantação para o útero da mulher. O processo após a selecção é semelhante a processo de reprodução in vitro. A Igreja não só considera isso um homicídio, mas também aponta para que o Homem assume o papel de Deus, pois agora podemos escolher.
Será uma menina ou um menino? Será que a criança vai nascer saudável? Agora os pais podem escolher e é obvio que eles vão escolher um embrião saudável. Existe também a tendência de escolher meninos, pois muitos casais querem ter filhos e não filhas. Parece um sonho, mas no fundo nós estamos a manipular vidas de seres humanos. O problema ético é evidente, embora o embrião não pode deliberar, mas é um ser humano em miniatura. Imaginemos que ocorre um erro e um embrião saudável é eliminado. Poderá também acontecer que uma pessoa que nasce com altas probabilidades de ter o cancro apresenta capacidades mentais grandiosas. E se este génio não tivesse nascido? Pois, a genética não consegue prever se a criança for um génio. Se o governo autoriza a selecção genética parece que está a desprezar pessoas com capacidades limitadas e os doentes. Cada se humano racional percebe que não se pode excluir uma pessoa com síndrome de Down só por ela apresentar anomalias genéticas que causam um desvio da norma, pois não deixa de ser um ser humano. A Declaração Universal dos Direitos Humanos define que todos os humanos têm os mesmos direitos e nascem livres. Os defensores de selecção genética explicam que o embrião até ao estádio da morula (fase de 64 células) não pode ser considerado um ser humano.
Entre a população observamos tanto os defensores desta ideia como os opositores. O argumento dos primeiros resume-se ao facto de que uma criança com deficiências físicas ou mentais sofre durante toda sua vida, por isso a selecção genética é quase um acto de compaixão. Mas será que é um argumenta que pode compensar o facto de tirar a oportunidade ou o direito a vida a um ser humano inocente?
Os médicos, por sua vez, apontam para a redução de casos de cancro e de outras doenças hereditárias. O Governo está, evidentemente, interessado na redução do número de pessoas que necessitam de assistências sócias e médica. Assim, o mais alto tribunal francês de apelação defende a ideia do aborto selectivo para as crianças deficientes. Com o desenvolvimento das experiências genéticas torna-se possível a eliminação de fetos considerados “inferiores”. Embora não se consegue prever o nível de capacidades mentais da futura criança o que cria discussão a volta do termo “inferiores”.
A selecção genética assemelha-se a eugenia o que cria uma reacção negativa de alguns cientistas e cidadãos. Pois se o Governo autorizar a selecção genética ou aborto selectivo parece que está a criar uma “eugenia institucional”.
O termo “eugenia” é usado para descrever o movimento apoia o melhoramento da raça humana estimulando os saudáveis e materialmente acomodados a ter filhos, enquanto ao mesmo tempo pressiona o resto da população a ter muito pouca ou nenhuma descendência. A eugenia foi inventada cientista inglês Francis Galton, pelos finais do século XX. Esta ideologia expandiu-se rapidamente e atingiu o seu auge quando Hitler encontra-se no posto de chanceler da Alemanha. A ideologia nazi promovia a pratica da eugenia o que levou a morte de milhares de crianças que nasceram doentes ou com algum desvio da norma, o mesmo futuro esperava as pessoas com problemas psicológicos graves e atraso no desenvolvimento mental. A eugenia também foi associada às experiências feitas com os judeus nos campos de concentração. Tudo isso levou ao abandono e proibição da eugenia durante algumas décadas. No entanto, hoje corremos o risco de regressar a eugenia e cair no mesmo erro.
Concluindo, na minha opinião a selecção genética pode ser uma atitude amoral. Quando os pais recorrem a selecção de embriões parece uma atitude egoísta, pois eles valorizam mais os seus desejos do que a vida de um ser humano. O mesmo ocorre quando o Governo autoriza o aborto selectivo ou a selecção genética ao nível institucional, pois parece evidente que o Estado persegue pelo interesse económico, pois se o número de pessoas que necessitam de apoio social diminui diminuem as dispensas económicas do Estado. Assim, parece que é um acto de egoísmo individual e colectivo. Todavia, a selecção genética é uma atitude mais racional do que a tendência de fazer aborto selectivo quando o sexo do feto não corresponde as expectativas dos pais. Isso parece radical, mas é uma prática normal na Índia. Em algumas regiões dos EUA querem autorizar aos pais escolher o sexo do seu futuro bebé. Esta situação parece mais absurda do que a selecção genética que é dirigida pelas razões médicas e não pelas preferências dos pais.
Na minha opinião parece aceitável prevenir o sofrimento de um ser humano e dos seus familiares no caso se a probabilidade de aparecimento de uma doença grave e sem cura for muito elevada. A decisão é dos pais e dos médicos, mas esta atitude só pode ser tomada nos casos extremos, no caso contrário corremos o risco de descriminação de seres humanos por serem de um dos sexos ou por terem determinado características que não influenciam a sua saúde mas que não agradem os pais. Assim, a selecção genética tem de ter limites e, por sua vez, devem existir leis que asseguram todos os direitos humanos tendo em conta o desenvolvimento da genética.
Este é apenas um dos problemas do imparável desenvolvimento da ciência e da tecnologia que levam ao aparecimento de novas oportunidades e, infelizmente, novos crimes. Muitas vezes, a humanidade ultrapassa o limite da ética quando persegue objectivos económicos ou científicos. Pessoalmente acho que deve existir não só o bom senso para tomar as decisões mas também um sistema jurídico mais eficiente do que o actual.


Anastasiya Strembitska
Nº2 10ºB
Escola Secundária de Azambuja
18 de Janeiro de 2009

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


Haiku


Este caminho
Ninguém já o percorre,
Salvo o crepúsculo.

De que árvore florida
Chega? Não sei.
Mas é seu perfume.

(Exemplo da poesia japonesa - Haiku)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Poesia...



Ideal


Aquela, que eu adoro, não é feita

De lírios nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas
Da antiga Vénus de cintura estreita...
Não é a Circe, cuja mão suspeita

Compõe filtros mortas entre ruínas,

Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...
A mim mesmo pergunto, e não atino

Com o nome que se dê a essa visão,

Que ora amostra ora esconde o meu destino...
E como uma miragem que entrevejo,

Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do Desejo...

sábado, 6 de setembro de 2008

Amor Privado


Maldito tempo perdido
Neste amor parado
Tristezas de um detido
Ficar na vida atrasado.
O perfume do teu corpo,
O sabor de te abraçar
Aqui o amor está morto,
E eu carente para te amar.
Loucas saudades sinto
Desses lábios que são teus,
Aqui neste labirinto
Desejo teus lábios meus.
Sou o Inverno mais frio
Neste mundo sem calor,
Porque a sorte me decidiu:
"Privar o teu amor!"
Anónimo