quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Diminuição de taxa de natalidade, fertilização artificial e Organização Mundial de Saúde

Perante a globalização e desenvolvimento de medicina, refiro-me nomeadamente às campanhas de vacinação (cada vez mais frequente), parece muito estranho o aumento do número de epidemias e taxas de infertilidade nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.



A infertilidade afecta cerca de 10-15% dos portugueses, sendo a taxa de infertilidade maior em alguns países europeus. Nos últimos anos foi inventado uma vacina contra o vírus do papiloma humano (contra cerca de 6 dos mais de 300 das suas variedades), mais conhecida como vacina contra o cancro do colo do útero. Pois, os cientistas consideram que o vírus de papiloma humano aumente a probabilidade de desenvolvimento de cancro. Embora, a mesma autoridade científica que tinha estudado o efeito de vírus de papiloma mais tarde considerou que não existe uma ligação entre o vírus e cancro do colo do útero (ver http://www.naturalnews.com/Report_HPV_Vaccine_1.html que contém o relatório de Mike Adams). O mesmo relatório informa que a probabilidade de activação do vírus nas mulheres que são portadoras do papiloma num estado latente aumenta cerca de 44% após a vacinação. O vírus de papiloma humano tem cerca de 300 variedades e afecta as superfícies cutânea e órgãos genitais, ao mesmo tempo o seu tratamento não é complicado e o efeito é apenas temporário, após a doença o vírus permanece no corpo, mas a pessoa fica imune para o resto da sua vida sem repercussões na sua saúde. Sendo 25-50% das mulheres portadoras do vírus na sua forma latente, havendo uma grande variedade de vírus deste tipo, sendo esse não prejudicial a saúde humana  (como já foi dito a ligação entre o vírus e o aparecimento do cancro não foi provada) e considerando que a vacina protege apenas contra 6 das variedades deste vírus a vacinação em massa não parece ser logicamente necessária. Pelo menos não é justificável do ponto de vista medicinal, uma vez que as companhias farmacêuticas obtêm enormes lucros da venda das vacinas.
Também parece suspeitoso o facto de que a vacinação ocorre na faixa etária de mulheres entre 13 e 45 anos, ou seja, no período fértil da mulher. Já se sabe que após a vacinação contra o vírus do papiloma morreram duas mulheres grávidas na Europa, embora a OMS  (Organização Mundial de Saúde) não encontrou "a ligação directa entre a vacina e a morte". O caso torna-se ainda mais estranha quando consideramos que a OMS, que financia a vacinação, por sua vez é financiada por Fundação de Rockfeller. Lembro que o proprietário dessa fundação que tem o seu nome é o adepto da ideia de Bilião de Ouro (Golden Billion, ver http://en.wikipedia.org/wiki/Golden_billion), que apoia a redução da população mundial até um bilião de pessoas, pois esse é o número limite de população que o nosso planeta poderá suportar.
Podem não partilhar a minha opinião, mas perece que o objectivo principal de campanhas de vacinação é a redução de fertilidade da população, para que, em última análise, o número de habitantes do planeta diminui.
A infertilidade é cada vez mais comum, mas as pessoas continuam a acreditar em campanhas de vacinação como se estas se fossem uma panaceia. Pois só se conhece um caso de contestação de administração desta vacina - um líder espiritual de uma nação africana aconselhou os seus compatriotas a não vacinar-se, devido ao risco de infertilidade...
Nesta situação, as notícias do mundo científico são bastante alegres. Pois, não há motivo para qualquer pânico, no futuro a forma tradicional de conceber bebés irá cair em desuso devido a enorme taxa de infertilidade na nossa população. Já se sabe que o futuro da reprodução é a reprodução in vitro.
"Segundo um novo relatório publicado na revista Reproductive Biomedicina Online, os avanços na tecnologia de Fertilização ‘in vitro’ (FIV) significa que será possível produzir embriões com uma taxa de êxito de praticamente cem por cento e cultivá-los em instalações controlados por computador. O avanço irá aliviar a pressão sobre os casais que adiado a decisão de ter filhos até os seus trinta e quarenta, para seguir uma carreira.

A técnica poderá tornar-se rotineira, ou seja, em vez de recorrer ao sexo para se reproduzirem, as pessoas poderão ter a possibilidade de conceber através da fertilização, no caso de adultos jovens, que têm apenas uma em quatro hipóteses por mês para fazê-lo naturalmente.

Entre aqueles que têm mais de 35 anos, a possibilidade de conceberem cai até dez por cento. As técnicas modernas significam para casais saudáveis uma excelente oportunidade. Segundo os autores do relatório, isto é apenas o começo. Os investigadores apontam que os avanços na reprodução artificial de animais, têm uma taxa de sucesso de quase cem por cento, na produção de embriões de gado e alegam que a tecnologia poderia ser facilmente adaptada para seres humanos." (notícia completa na página de CiênciaHoje http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=42796&op=all).
E no caso de espécie humana não possui mais gâmetas (células sexuais) viáveis sempre podemos recorres a vida sintética (Cientistas criam primeira célula viva com genoma sintético ).
Assim, podemos concluir que em breve a nossa existência não será mais do que indesejável para a ecologia e o equilíbrio do planeta Terra. Do ponto de vista dos governadores deste mundo (não confundir com o Governo do país ou qualquer autoridade legal conhecida pelo grande pública) não irão precisar da nossa existência para o seu bem-estar, iremos, do ponto de vista deles, cair em desuso tal como uma disquete cai em desuso quando aparece um CD ou um disco rígido externo. Em termos biológicos vamos ser extintos tal como já desapareceram os dinossauros e milhões de outras espécies de seres vivos.

Anastasiya

terça-feira, 8 de junho de 2010

Biotério: vida humana ou vida animal?


Quando falamos da ética dizemos que todos os seres vivos têm direito à vida, mas a questão que se coloca é: “O que é mais valioso: uma vida humana ou uma vida animal?”.
Desde tempos primordiais os animais ajudam ao Homem compreender o funcionamento da Natureza. Com o desenvolvimento da ciência houve necessidade de analisar as novas invenções químicas, bioquímicas, genéticas, farmacológicas e médicas. Para testes e análises destes novas invenções e estudo das consequências para organismos vivos foram usados os animais, de modo a evitar vítimas humanas desnecessárias.
No entanto, há pessoas que não querem entender a importância de testes em animais. Os activistas ficam tão aterrorizados com a morte de ratos de laboratório que exigem proibir o uso de animais. Pois, para esses preudo-altruístas o mais importante é “abolir práticas cruéis”. Eles esquecem que isso vai por em causa vidas humanas e saúde humana.
Hoje em dia não existe nenhuma alternativa segura e fiável de testar medicamentos e produtos químicos de modo a evitar perigo desnecessário para seres humanos. Obviamente, antes de testar um produto potencialmente perigoso para o Homem os cientistas devem executar testes em animais irracionais. Enquanto não há uma alternativa totalmente fiável, os testes em animais de laboratório são mais seguros. As hipóteses que os activistas da Plataforma de Objecção ao Biotério propõem são basicamente duas: o método in vitro e in silico. O método in vitro consiste em criar tecidos em laboratório e estudar o efeito de produtos químicos nestes tecidos. O principal problema deste método é que não se consegue estudar nem prever o efeito destes produtos num organismo complexo em termos de fisiologia e efeito neuro-hormonal. O método in silico uso de modelos informáticos para previsão e estudo de químicos. Este método pode ser usado para treino de pilotos em simuladores. Mas será que este método substitui a experiência para um piloto aviador ou um cirurgião? Se essa técnica for usada será que os médicos aprenderão a controlar o estado de um organismo complexo? Claro que as maquinas e os robôs são muito elaborados, mas um ser vivo é ainda mais complexo e, por isso, imprevisível. Temos de pensar na preparação que um médico irá ter se as únicas operações que ele efectuou foram feitas nos modelos artificiais. Mesma coisa para os pilotos que são responsáveis pelas vidas humanas, tal como os militares, que apesar de treinarem em modelos informáticos necessitam de treino nas condição mais aproximadas às reais.
Nós não podemos ser demasiado idealistas e por em perigo a vida humana. Os métodos alternativos, que usam modelos informáticos ou tecidos artificiais, são demasiado imperfeitos e pouco seguros. Os testes em animais não é a única técnica que os cientistas usam, simplesmente é um dos métodos usados em conjunto para garantir a máxima segurança de produtos e novas tecnologias. Qualquer novo produto químico ou uma nova técnica genética devem ser analisados teoricamente, depois em animais e/ou plantas e só depois é que os cientistas podem recorrer aos testes em voluntários humanos. O objectivo principal é minimizar o risco para saúde humana. Se existe alguma alternativa de reduzir esse risco temos de a usar. Nenhuma mãe irá dar um produto ao seu filho se esse produto é potencialmente perigoso. E qualquer produto poderá ser mortal e é preferível sacrificar um animal para testar isso do que um ser humano – um ser racional com consciência (“res cogitans”) .
Os argumentos éticos que os apoiantes da POB usam são irrelevantes e falaciosos (ignoratio illenchi). Usam as teorias de Kant e de Mill, mas simplesmente expõem as leis morais numa formulação geral, se explicar a relação com a questão de biotério. Cometem a falácia da conclusão irrelevante. Os argumentos científicos são débeis e tendenciosos. Grande parte de invenções farmacológicas e genéticas foram descobertas graças aos animais ou testadas nestes.
Uma ciência a sério nunca põe em perigo a vida humana. Segundo a ética deontológica de Kant nunca podemos por em perigo a vida humana ou tirar a vida a um ser humano. Vida humana é mais valiosa do que uma vida animal, qualquer um de nós poderá sentir isso se pensar nas pessoas próximas ou na sua família.

domingo, 4 de abril de 2010

Os Homens Que Odeiam As Mulheres


Ficha Técnica:
Nome: Os Homens Que Odeiam As Mulheres ("Män som hatar kvinnor")
Ano: 2009
Banda Sonora: Jacob Groth
Realizador: Niels Arden Opley
Produzido: Soren Staermose
Actores: Noomi Rapace; Michael Nyqvist
Duração: 152 minutos
Autor do original: Stieg Larsson
País: Suécia

Autor:
O livro “Os homens que odeiam as Mulheres” foi escrito por Stieg Larsson, sendo o primeiro livro da sua trilogia “Millennium”.
Stieg Larsson nasceu no dia 15 de Agosto de 1954, foi escritor e jornalista sueco, responsável pela revista Expo. Lutou contra os movimentos neo-nazis que emergiam na sociedade sueca. Escreveu três livros que constituíram a Trilogia Millennium. A sua vida acabou tragicamente no dia 9 de Novembro de 2004 devido a um ataque cardíaco.
As suas obras tiveram um sucesso mundial só após a sua morte. A série de livros Millennium não se pode considerar terminada, pois o autor planeava escrever mais seis livros, infelizmente não o conseguiu realizar.
Trilogia Millennium:
 Os Homens Que Odeiam As Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo)
 The Girl Who Played with Fire
 The Girl Who Kicked the Hornets' Nest

O sonho da Razão cria Monstros

O filme Os Homens Que Odeiam As Mulheres relata fidedignamente a história do livro de Stieg Larsson, resumindo algumas partes mas mantendo o cerne da acção. Tanto o leitor como o espectador cinematográfico vivem uma atmosfera misteriosa e original, incomparável com blockbusters americanos ou comédias francesas. Até para um crítico de cinema experimentado este filme sueco é uma experiência nova. Na Europa do Norte o livro teve um grande sucesso, é o livro mais vendido desde sempre na Noruega e Dinamarca. O primeiro livro da trilogia foi traduzido para treze línguas. O filme herdou a tradição de sucesso da obra escrita, este sindroma nórdico surpreende pela positiva.
Ao contrário da maioria dos filmes europeus e, sobretudo, o chamado arthouse o filme não carece de cor e joga com o crepúsculo de uma maneira fantástica. Este jogo de cor e luz cativa o olho. A banda sonora não é algo que se destaca, mas sim um acompanhamento harmónico do filme.
Alguns críticos e espectadores consideram que o filme expõe as cenas violentas de forma demasiado realista, embora os outros tinham considerado que este aspecto torna o filme ainda mais interessante do ponto de vista da crítica social.
A história começa com um estranho quadro que Henrik Vanger, um milionário e fundador da poderosa empresa CEO, recebe pelo correio. Vanger invoca um jornalista especializado na investigação, Mikael Blomkvist, para investigar o desaparecimento da Harriet Vanger – sua subrinha. Ele suspeita que a rapariga foi assassinada por um membro da numerosa família Vanger há 40 anos.
O quadro que Henrik recebeu é um herbário, o que poderá simbolizar a esperança frágil e maligna que este homem tem em encontrar o sua sobrinha ou, pelo menos, desvendar o mistério da sua morte e vingar-se. Esta esperança é maléfica, pois destrói Vanger psicologicamente.
Lisbeth Salander é uma hacker que investigou sobre a entidade de Mikael Blomkvist e interessa-se pelo caso que ele investiga. Junta-se a investigação do Blomkvist. Lisbeth é uma rapariga muito especial, para além de ser hacker é extremamente inteligente, corajosa e tem memória fotográfica. No entanto, ela tem tendências anti-sociais agressivas, um estilo de dark-punk ou gothic-punk, é bissexual e a sua coragem flutua entre o sentimento hipertrofiado de justiça e loucura completa. O seu passado é obscuro e o futuro é indeterminado. Ela é um tipo de personalidade completamente independente do resto do mundo e dos estereótipos sociais, rebelde e incontrolável, que gosta de enfrentar a opinião social.
O seu estilo releva o seu estado psicológico, o preto simboliza depressão e uma tentativa de defesa do mundo exterior, tal como solidão e independência. Nas costas Lisbeth Salander tem uma tatuagem em forma de dragão. O dragão em mitologia e tradição europeia, tal como nas outras culturas, o dragão simboliza sabedoria e, em simultâneo, as forças do mal. Assim, toda a personagem de Lisbeth não é só enigmática mas também simbólica, quase ocultista.
Ao longo da sua investigação os enigmas emergem à superfície formando um quadro cheio de sangue, ódio e violência. Para além de uma série de assassínios rituais de mulheres é revelado o lado negro da sociedade e os fantasmas terríveis do nazismo.
No filme não há nem idealistas nem anjos, mas si é revelado o lado obscuro da sociedade, que esconde mistérios terríveis sobre a imagem de bem-estar ou de american dream…
Pessoalmente, acho que neste filme nota-se uma nítida crítica social e uma tentativa de prevenir a sociedade de neo-nazismo que, infelizmente, emerge cada vez mais nas sociedades democráticas ocidentais que com o passar do tempo esquecem-se da vergonhosa e desumana experiencia de Holocausto.
Outro aspecto é a evidenciação de casos de violência extrema que as mulheres por vezes sofrem. Pois há pessoas que as consideram como inferiores ou mesmo animais e objectos, nomeadamente objectos sexuais. Estes indivíduos que julgam-se superiores e todo-poderosos esquecem-se que são as mulheres que os deram vida, e que para além de serem capazes de fazer maior milagre, são seres humanos, dotadas de inteligência, razão, espírito e alma. São cientistas, criadoras, protectoras… Originais, espirituais, sabias… As pessoas que tendem rebaixar os outros revelam apenas uma insegurança e debilidade psicológica que pretendem compensar afirmando a sua força física ou até crueldade.
Infelizmente, nestas sociedades que se julgam tão racionais, democráticas e civilizada as mulheres sofrem violência e descriminação. Para ver a dimensão e profundidade do problema basta ver as estatísticas: uma em três mulheres sofre ou sofreu violência doméstica. Na Espanha uma em dez mulheres é vítima de violência doméstica. E o que a sociedade faz para mudar a situação? Nada. Muitos vivem a sua vida e saboreiam o seu copinho de vinho como nada se passasse. Mas para esses e outros, que não só são indiferentes, mas mesmo violentes, devo relembrar que são mulheres que dão a vida e se as suas crias não as respeitam não merecem essa dádiva…
Desta forma, o filme Os Homens Que Odeiam As Mulheres poderá não ser uma experiência agradável para aqueles que não querem ver a realidade ou para aqueles que são cruéis, mas será sempre uma experiência educativa. Pois irá comover algumas pessoas através de uma crítica social.

Recursos:
http://www.millennium-ofilme.com/inicio.html

terça-feira, 30 de março de 2010

Um caos organizado




No Universo nada é ao acaso
A queda de corpos, mudança de estado
Tudo está programado.
Mas existe uma lei austera:
Sempre há energia dissipada!
Os átomos soltam-se, protestam moléculas,
O caos aumenta num sistema isolado.
Entropia - um caos desordenado.
Se não houvesse este postulado
Num copo com água morna e gelo
A água ferver podia.
Todo mundo entra em euforia.
Cientistas conspícuos muito ensaiaram
Mas nada mudar conseguiram
As partículas e energias continuam
Numa rebaldaria.
Boltzmann, Planck, Kelvin e Clausius concluíram:
Num sistema isolado, parte de energia útil dissiparia.
Kelvin o maior pessimista de todos seria,
Pois a Morte térmica do nosso Universo previa,
Nesse estado disponível não teríamos energia.
Triste demónio de Maxwell também não resistiria.
Apenas Carnot não parava de imaginar
Um reino de genuína harmonia.
Questionei-me:
Será possível a tal alegria?...

Akira

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Actualidade e Intemporalidade do “Sermão de Santo António aos peixes”




Sermão – s.m. Discurso que o padre pronuncia no púlpito, para exortar os fieis. Prática moral. Fig. Arrazoado fastidioso. Censura importuna. Repreensão.
Dicionário de Língua Portuguesa


Sermão é um texto expositivo-argumentativo com o objectivo crítico. O Padre António Vieira, no seu sermão, utilizou a metáfora dos peixes para criticar os vícios dos homens. Quando satiriza os defeitos dos peixes, na realidade, tenta repreender os homens dos seus pecados e quando compara as qualidades dos peixes com as qualidades do Santo António tenta converter os ouvintes. Mas qual será o alcance desta crítica?
Do ponto de vista religioso a critica é intemporal, pois refere-se aos valores religiosos baseados na Bíblia e nos pecados humanos, que são eternos, infelizmente. Por um lado para a sociedade cristã Bíblia é universal e inquestionável, o que provoca o aparecimento de dogmas que servem de base para conhecimento religioso e para as normas morais. Por outro lado, os pecados humanos são intemporais, pois parece que fazem parte da própria natureza do Homem. Gula, cobiça, ira, adultério, mentira, vaidade e hipocrisia. São tudo pecados humanos imutáveis no tempo. Já desde Adão e Eva que os humanos cometem acções moralmente incorrectas, levados pela sua natureza animal e desuso da razão ou pelas suas emoções e paixões. O mais importante não muda, apenas, com o tempo a maneira de cometer o mesmo pecado torna-se mais minuciosa e elaborada. Com todo o nosso avanço tecnológico e científico o nosso progresso moral de dois mil anos pode ser considerado nulo, pois a tecnologia abriu as novas formas de cometer os mesmos pecados mortais. Essa é uma das razões palas quais o sermão do Padre António Vieira é intemporal e actual. Outra causa desta característica também está profundamente ligada os valores morais e religiosos. Os valores católicos continuam bastante actuais, por isso, o sermão que se baseia neles também permanece actual e continua cativar a atenção do auditório. Assim, se as idiossincrasias não mudam a crítica também não muda.
No seu sermão o Padre António Vieira trata de vários assuntos curiais da sua época, pois o sermão tinha de ser actual para encontrar a compreensão nos corações dos ouvintes. No entanto de que temas trata o sermão?
Logo no exórdio, o pregador esclarece as razões pelas quais vai pregar aos peixes: a terra não se deixa salgar – os homens não querem receber a verdadeira doutrina, não agem de acordo com ela, imitam o mal exemplo e servem os seus apetites antes de seguir a palavra de Cristo. Se este comportamento humano fosse ultrapassado no nosso tempo não compreendíamos o sermão, pois não teríamos a mínima ideia de que tipo de acções moralmente condenáveis fala o Padre António Vieira. No entanto, as suas palavras encontram compreensão no nosso coração, pois todas estas situações são nós muito próximas, quase íntimas. Cada dia vemos pessoas materialistas, hipócritas e mesquinhas na televisão, nas primeiras páginas de jornais e revistas, na escola e no trabalho, e pior do que isto, podemos vê-las na nossa casa e no nosso espelho quando vamos lavar os dentes. Vivemos num mundo materialista, numa sociedade consumista. O nosso objectivo não é progredir moralmente ou espiritualmente, o nosso objectivo é comprar uma televisão LCD, ter dois carros e ser tão famoso como um jogador de futebol da Benfica. E não vale a pena dizer que 95% da população mundial acredita em Deus e que a sua vizinha D.Estefânia vai todos os domingos a missa. Por ir a um ritual religiosa a pessoa não recebe a indulgência, só é digno quem age por puro dever e de acordo com a moral e não aquele que tenta parecer bom cristão. No tempo de Vieira a população era ainda mais religiosa, mas continuavam a cometer pecados. Então não é uma questão de ser religioso? Não! É uma questão de agir de forma moralmente correcta, agir bem. E isso depende da natureza do Homem, mas como já vimos a nossa maneira de ser não muda. Exemplificando: uma pessoa encontra a carteira na rua e até sabe de que é o objecto, mas quantas pessoas é que devolviam a carteira se tinham a certeza de que ninguém as viu e ninguém as punia se levassem o dinheiro da outra pessoa? E quantas pessoas diriam a verdade se isso prejudicasse os seus interesses? Raras, raras são as pessoas honestas e imparciais. Tanto no passado como na actualidade a norma é não ser honesto. Já o próprio Vieira dizia: “…antes bastava ser português e agora tem-se de ser um santo…”. É por ter essa visão que transcendia a sua época que o Padre António Vieira era considerado um visionário.
E se nada muda, se não há uma evolução moral é porque as pessoas não querem ouvir e não querem seguir o que é moralmente correcto. Maior parte de nós raramente sacrifica os seus interesses para ajudar os outros ou para agir de modo moralmente correcto se isso, mais uma vez, não lhes favorece.
Relembrando, a sociedade da época de Vieira era uma sociedade de colonos e colonizados. Deve-se notar que a colonização de territórios brasileiros não foi muito pacífica para os índios, antes pelo contrário, era destruidora para a sua cultura e liberdade. Os colonos tentaram explorar os povos nativos da América do Sul, pois era uma mão-de-obra muito mais barata do que os escravos negros. Então, é assim que começou a escravização dos índios. Embora existiam leis que restringiam as condições para escravização de índios os colonos raramente as cumpriam e os governadores estavam em conivência com eles. Assim, mais uma vez o povo mais desenvolvido tecnologicamente acabou por oprimir e destruir a civilização dos índios. Comparando com a actualidade podemos verificar que a atitude de humanos não mudou, pois basta vez o que acontece aos povos menos desenvolvidos ou aos aqueles que perderam a guerra. Os grandes comem os pequenos – os países mais poderosos exploram os menos desenvolvidos. Os países desenvolvidos exploram os recursos naturais dos países em desenvolvimento, criando uma pobreza ainda maior. Num plano menor, as grandes empresas acabam com as pequenas, e os mais ricos ganham as suas fortunas a custa dos mais pobres e não dos outros ricos. Tudo tal como o padre vieira dizia.
Outro problema é que as pessoas sempre tinham o medo, e como a consequência o ódio, de tudo que diferente, estranho e incompreensível para eles devido a sua ignorância. O racismo não é um problema do século XX e XXI, já no tempo de vieira relevava-se na relação entre os colonos e os colonizados. No tempo de Vieira ainda existia a escravatura, os africanos e os índios eram consideradas as pessoas da classe mais baixa, ou até animais e objectos. Podiam ser vendidos, explorados, assassinados sem ninguém os defender, só porque eram da outra raça. Como os europeus pensavam a sua raça era inferior a raça europeia, só por não terem a tecnologia tão desenvolvida ou por terem costumes que pareciam bárbaros aos colonizadores. Mas nada disto faz com que eles deixam de ser seres humanos, com alma, razão e consciência. Não é a aparência que faz do Homem um ser racional, mas sim o modo como ele age. E deste ponto de vista, quem são os verdadeiros animais cruéis são os colonizadores que tentam justificar os seus crimes pela aparente ignorância dos índios.
Infelizmente, o racismo é um fenómeno prolongado. Para compreender isso basta considerar alguns factos históricos. Um dos exemplos é a postura dos romanos perante os outros povos. Os romanos consideravam que eles eram superiores aos outros povos, e tornavam o seu desenvolvimento científico, cultural e tecnológico a causa de discriminação e de racismo. No século XX, o racismo foi uma das causas da maior tragédia da toda a história da humanidade – da Segunda Guerra Mundial. Só por serem consideradas inferiores milhões de pessoas foram torturadas e assassinadas de maneiras mais cruéis pelos nazis. A discriminação das pessoas africanas, asiáticas ou árabes continua a existir ainda hoje.
Como já vimos, o racismo que foi denunciado pelo António Vieira, não tanto no Sermão de Santo António aos peixes, como em outras obras que ele escreveu não é um fenómeno restrito e isolado, mas uma realidade bastante actual.
As pessoas não devem de se esquecer que não são melhores aos outros só por terem características físicas mais apreciadas pela sociedade em que vivem, isso são apenas estereótipos que não importam, o que importa é o aspecto moral. A vaidade leva as pessoas a cometer acções terríveis e injustas. E tal como o Vieira diz, não se deve tentar ser mais do que aquilo que Deus permitiu, pois as pessoas foram criadas todas iguais nos seus direitos e deveres, todas livres e racionais. Assim, o racismo é inaceitável, pois tenta passar a ideia de que uns são mais livres e mais humanos que outros. Mas ninguém gostaria de estar no lugar dos que são discriminados. E mesmo aqueles que não se preocupam com a ética devem saber que os estereótipos e as modas mudam, e um dia aquilo que era apreciado poderá ser odiado, invertendo a situação. Por isso, todos devemos seguir o velho mandamento, também conhecido como Regra de Ouro na Filosofia, “Trata o teu próximo tal como tu gostariam que te tratassem.”
Obviamente, existe o relativismo de padrões culturais, mas não podemos confundir o relativismo cultural com o relativismo moral. A cultura evolui, pois até o nosso comportamento durante as refeições actualmente é completamente diferente do comportamento dos homens há milhões de anos atrás. Isso chama-se a evolução, mas existe uma forma mais corrompida de relativismo de padrões culturais é aquele que leva ao relativismo ético e a hipocrisia. Pois, frequentemente, nós achamos que podemos cumprir as normas morais só quando isso é do nosso interesse, ou pior só cumprimos as normas sociais. “Em Roma sê romano.” Mas esse relativismo abusivo cria uma tolerância terrível. Assim, se vivemos numa sociedade em que maioria não segue as normas morais o relativismo manda seguir as tradições desta sociedade, ou seja agir mal. No entanto, isso é impensável. O relativismo não pode justificar nem acções passadas nem a hipocrisia actual, pois todos sabemos quais são os princípios éticos e todos podemos facilmente deduzir como será uma sociedade sem a moral (basta dizer que neste caso podíamos aceitar moralmente, por exemplo, o assassínio). Seria uma sociedade sem o mínimo progresso moral!
O polvo no sermão de António Vieira representa a traição, a hipocrisia e a falsidade. Este defeito dos homens é tão comum e compreensível hoje em dia que se torna banal. E tal como no tempo de António Vieira os colonos e os comerciantes consideravam que a hipocrisia e a arte de enganar (eles tornaram isso quase uma arte) eram usadas para conseguir obter mais lucro, enganando os outros, hoje em dia os políticos e os grandes homens dos negócios fazem o mesmo. Por isso, este pecado já é tão nós familiar que não vale a pena comenta-lo, pois os exemplos estão a nossa volta, mas talvez vela a pena relembrar aos que se esqueceram que não é uma norma comportamental, é um PECADO.
A cobiça está fortemente ligada à exploração dos mais pobres e mais desprotegidos. A nossa sociedade é uma sociedade consumista o que automaticamente faz dela um mundo de materialismo. Mas se no século XVIII a pessoa era “moída” logo após a morte, actualmente as pessoas são moídas ainda vivas. Quantos são explorados pelos empresários nos países do terceiro mundo, e quantos são explorados pelos esposos e esposas, e pelos filhos e pela própria família? Inúmeros.
Este sermão não só é valioso pelo seu conteúdo como também pode ser apreciado pela forma. No Barroco a produção parenética era abundante, mas tal como o próprio estilo Barroco os sermões frequentemente continham um discurso difícil e exuberante, carregado de palavras complicadas, mas frequentemente com pouca lógica e de difícil compreensão. Mais uma vez devemos elogiar o Padre António Vieira, pois ele conseguiu fazer um sermão bastante compreensível, embora rico em termos de conteúdo, inteligente na maneira como irónica e critica a sociedade através de uma alegoria e abundante em termos de recursos estilísticos como metáforas, comparações, aliterações, enumerações, ironias e interrogações retóricas. O autor construiu o sermão para este cativar a atenção, lembrando-se das pausas, entoações e mudanças de ritmo que enriquecem o discurso e não o tornam monótono. É um texto que impressiona também pela forma como está escrito.
Os objectivos do sermão é ensinar, deleitar (agradar) e persuadir (converter) – “docere, delecter, mover”. Como já foi visto o sermão deleita o ouvinte com a forma como está escrito. E como é um texto rico em forma e, principalmente, em conteúdo, tratando de problemas que tocam o publico. Pode ser considerado uma crítica construtiva, pois crítica o Mal e mostra os bons exemplos, elogiando o bem, logo ensina os ouvintes a verdadeira doutrina. Finalmente, o sermão é um discurso retórico e por isso tenta persuadir o s ouvintes. Não nós podemos esquecer que as palavras têm um poder terrível, podem salvar a vida quando dão esperança, podem tornar cada um a pessoa mais feliz do mundo, por exemplo, quando uma mãe houve a primeira palavra do seu filho ou quando ouvimos da pessoa que mais gostamos – “Eu amo-te.”. No entanto, a palavra pode ferir pior que uma espada, pois conhecemos bem os casos do quotidiano, e mesmo os factos históricos quando um exército invade um país porque alguém disse que esse país vai usar armas químicas contra os outros, embora não se tem provas, ou quando alguém recebe o premio Nobel da Paz só pelas belas promessas. E não é preciso ir muito longe, um discurso retórico persuasivo pode levar a uma guerra, a uma revolução ou a uma catástrofe económica. Incrivelmente, é mais difícil converter as pessoas de modo a seguiram o Bem do que convencer escolher o Mal. Mesmo assim, o discurso do padre António Vieira é uma forte crítica social, e uma das provas que converteu alguém é o facto de ser ainda dada na escola e de ser considerada um exemplo a seguir.
Como já foi visto, O Sermão de Santo António aos Peixes declamado pelo Padre António Vieira é uma crítica social que permanece actual e, provavelmente, continuará fazer sentido nos próximos anos. Pois é um texto que trata de valores éticos que são intemporais e imutáveis, e da própria natureza humana que mantém se inalterável.
Concluindo, se alguém me perguntar se o sermão é actual hoje em dia eu direi que é ainda mais adequado para a situação actual do que para a do século XVIII, pois a nossa sociedade está ainda mais corrupta do que a sociedade da época de Vieira. É porque há poucos sermões hoje em dia estamos nesta situação, pois raramente ouvimos as vozes que nos criticam, preferindo escutar aqueles que nos elogiam e deleitam, esquecendo que muitas vezes acabam por explorar-nos e levar a morte como as sereias levavam os marinheiros. E se alguém não compreender a mensagem moral não é porque o sermão é de difícil compreensão, é porque não quer ouvir, ou porque desaprendeu pensar limitando-se a engolir toda a informação que vem de Internet e da televisão. Esperemos que não seja porque não consegue compreender a essência deste texto – o facto de os pecados serem moralmente inaceitáveis – pois isso significava que a imoralidade tornou-se uma norma.


Anastasiya Strembitska

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A Liberdade Humana: realidade ou ilusão?


0.
Hoje em dia é habitual ouvir falar de Direitos Humanos, de Democracia, de direitos de consumidor, de liberdade de orientação sexual, de crenças religiosas. Os políticos prometem a liberdade de pensamento e de expressão. De facto, gostamos de pensar que somos mais livres que os nossos antepassados devido ao progresso tecnológico e social. No entanto, ser livre, agir livremente são expressões com vários significados, empregues em vários sentidos. O objectivo da reflexão filosófica é analisar o que significa ser livre, se somos verdadeiramente livres e em que condições podemos agir de forma livre. Neste artigo vamos tentar introduzir o problema de liberdade e analisar em que medida somos ou não livres nos nossos actos de vontade.
1.
Qualquer acto humano é um acontecimento, mas o acto voluntário envolve a intenção do agente. Como qualquer acontecimento o acto voluntário (intencional) é o efeito de uma causa, causa essa que nós chamamos os motivos da acção. No entanto, não só os motivos compõem a acção voluntária, é necessário haver a deliberação do agente, que é avaliação das diversas circunstâncias da acção em função dos fins que o agente se propõe. Após a deliberação o agente chega a uma decisão, porém, também devem ser considerados os fins ou as finalidades. Depois da concepção da acção voluntária segue a sua realização que obriga o agente mobilizar os meios no mundo físico para chegar a um certo resultado. Finalmente, o último componente da acção voluntária são as consequências que o agente deve assumir, independentemente do facto dessas coincidirem ou não com as suas intenções.
Para o estudo da liberdade humana temos de considerar os actos voluntários e reflectir em que medida somos livres nas nossas acções conscientes.
2.
Agir livremente envolve diferentes dimensões de liberdade como o livre-arbítrio, autarquia, autonomia e autognose. O livre-arbítrio é a capacidade do agente decidir por si entre várias alternativas de acção. Porém, a capacidade de realizar a acção por si mesmo – autarquia – também é uma dimensão de liberdade, tal como a capacidade de instituir a si próprio uma norma de acção – autonomia, e a possibilidade de conhecer a si mesmo.
No entanto, cada acontecimento, incluindo os actos voluntários, tem uma causa. Seguindo diferentes perspectivas filosóficas existem causas determinantes e condicionantes. As causas determinantes não deixam ao agente a possibilidade de livre-arbítrio, enquanto as causas condicionantes apenas influenciam a acção do agente, mas este pode decidir entre vários cursos de acção.
Os libertistas afirmam que existem acções livres, ou seja, o livre-arbítrio, e que o agente é a causa primeira da sua acção numa cadeia de causalidade. Entretanto, como é que as causas mentais (não físicas) podem causar efeitos no mundo físico?
Outra teoria que se opões ao libertismo é o determinismo. Os deterministas afirmam que existe uma causalidade necessária, isso é, reproduzindo as mesmas causas e criando as mesmas condições vamos constatar o mesmo efeito necessariamente. Outra característica é que os deterministas aceitam somente as causas determinantes, que transcendem completamente o agente e que o agente ou não conhece ou não controla. Assim, o agente não é livre nas suas acções, logo é determinado.
Existe ainda a perspectiva compatibilista que aceita as causas determinantes e condicionantes. Logo, o agente, embora condicionado pode agir livremente, pois pode deliberar e decidir enquanto ser racional. A posição de Kant é uma posição compatibilista, pois afirma que o agente enquanto ser da natureza é determinado pelas causas anteriores e leis da Natureza, mas enquanto ser racional é livre na sua deliberação e decisão, uma vez que, ao contrário das leis da Natureza, as normas sociais e a Lei Moral não anulam o livre-arbítrio.
3.
Examinamos um caso concreto e vamos partir da hipótese de que o determinismo é verdadeiro. Por exemplo, após o almoço vais comer sobremesa e tens de escolher entre o bolo e a maçã. Racionalmente, a maçã é mais saudável e o bolo engorda, logo devias escolher a maçã. No entanto, queres comer algo doce e optas por comer o bolo. A maioria das pessoas dirá que nesta situação tinha a possibilidade de livre-arbítrio, logo podia optar tanto pela maçã como pelo bolo. O determinista afirma que a acção de escolher o bolo foi determinada e dependia de causas que o agente guloso não controla ou por causas que o sujeito ignora, porque nem sequer conhece ou transcendem a sua consciência: causas físicas ligadas à natureza do seu organismo ou à hereditariedade, factos mentais relativos ao seu processo de racionalização. Assim, reproduzindo as mesmas condições e causas os efeitos reproduziram-se necessariamente e serão sempre os mesmos. As nossas escolhas são determinadas e nós não somos responsáveis pelas nossas acções, consequentemente. Deste modo, se o determinismo for verdadeiro ninguém pode ser razoavelmente responsabilizado pelas suas acções? A resposta é – não. O determinismo admite que existe a responsabilidade social, ou seja, o agente pode ser responsabilizado pelo que faz, não pelo escolher fazer. Concluindo, um criminoso não deixa de ser culpado por não controlar as causas das suas acções, pois os seus comportamentos, pelos efeitos e consequências que têm para os outros, não deixam de ser graves. Logo, o determinismo enquadra-se perfeitamente a nossa realidade.
4.
Em conclusão, se o libertista partidário do livre-arbítrio não conseguir mostrar que o agente pode conhecer e controlar todas as causas relevantes para as escolhas que fazemos, então a posição determinista parece ser a mais forte.
Anastasiya Strembitska

sábado, 13 de junho de 2009

“O Barão de Lavos”





Editora: Livraria Chardron (1ª e 2ª edição)

Autor: Abel Botelho
Abel Acácio de Almeida Botelho nasceu em Tabuaço, no dia 23 de Setembro de 1855. Durante sua vida foi militar e diplomata português, porém formou-se como medico e destacou-se como escritor.
No exército passou o percurso desde o soldado raso até ao coronel. Pertenceu a várias agremiações como Academia das Ciências, Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses, de Lisboa e do Porto, Associação da Imprensa, Sociedade Geográfica de Lisboa, entre outras.
Como escritor representou Portugal do realismo extremo, de uma maneira Naturalista, sem atenuar a realidade. Em 1891 iniciou a séria da Pathologia Social[AS1] , na qual analisava com a precisão e perspicuidade os males que afectavam Portugal e, nomeadamente, Lisboa.
Abel Botelho morreu na Argentina, no ano 1917, provavelmente no dia 24 de Abril, durante Primeira Guerra Mundial.


Resumo:
O romance foi escrito pelo Abel Botelho e publicado em 1891. É o primeiro livro da série Pathologia Social que trata de um tema relacionado com a sociedade e as patologias sociais, neste caso “O Barão de Lavos” levanta o tema da homossexualidade.
A história começa em 1869, D. Sebastião, conhecido como Barão de Lavos, é um membro da alta sociedade que apesar de ter uma esposa, Elvira, tem um lado antagónico, quase animal. Este lado oposto da sua vida caracteriza-se pela obsessão patológica pelos jovens. No entanto, apesar a sua paixão sindromática o Barão de Lavos não é criticado nem expulso da alta sociedade, embora as suas preferências não são muito subtis. A sua queda moral e social começa quando ele apaixona-se por um jovem de dezasseis anos, Eugénio. O rapaz começa explorar o barão economicamente e entra na sociedade a qual o barão pertence. Passando algum tempo, Eugénio e Elvira tornam-se amantes e quando o D. Sebastião descobre a traição não consegue voltar a vida normal.
Gradualmente, o Barão de Lavos perde o seu estatuto, económico e social. No final da sua vida ele encontra-se praticamente na miséria, sustentado por poucos amigos, é uma pessoa sem moralidade e dignidade humana. A história acaba com a morte do Barão de Lavos, infâmia e violenta.

Selecção de um texto
“As leis morais são as regras de um jogo no qual todos fazem batota, e isto desde que o mundo é mundo.”[AS2]
Jean Cocteau

Excerto do livro:
“Poder de resistência nenhum. Escravo da cacochymia ingénita, ia trupando cegamente na cauda dos seus instintos. Sentia a alma amaurotica, deprimindo o coração, os nervos despolarisados.
De principio, antes de conhecer Eugénio, estas predilecções antinaturnes tinham de ordinário uma acção toda exterior e uma duração ephemera. …
…Assim, se a coisa era possível, o móvel, o objecto de arte era comprado: o ephebo cedia ao suborno, ao lenocínio, nos mais baixos meios de sedução. “

Comentário:

O Barão de Lavos é o primeiro livro da série Pathologia Social escrita pelo Abel Botelho. É um livro polémico, pois retrata a sociedade contemporânea tal como ela é, com todos os seus defeitos e injustiças. Visto que hoje em dia a homossexualidade já não é considerada uma doença e é socialmente aceite em vários países, o livro é visto com perspectiva e releva aspectos da vida social que até são mais graves e que demonstram a decadência moral das pessoas.
A história começa em 1869, em Lisboa. Portugal do século XIX é representado por uma cidade e nesta representação o escritor consegue resumir os aspectos mais relevantes da vida do século XIX. A sociedade é subdividida em classes, umas privilegiadas e outras exploradas. A alta burguesia e nobreza têm uma vida luxuosa, formando alta sociedade. Esta harmonia contrasta com a infausta existência dos mais pobres e desfavorecidos que são explorados e rebaixados, estas pessoas pertencem a classe de proletariado ou até as mais baixos estatutos sociais, tal como prostitutas ou sem-abrigo.
O autor analisa a sociedade contemporânea com a precisão de um médico. Todas as patologias sociais são expostas com uma objectividade extrema que leva o leitor a uma crítica e reflexão sobre as normas sociais e a hipocrisia. Baseando-se no livro podemos verificar que a maneira como o autor escreve está interligada com a sua carreira profissional, pois ele foi médico e nos seus livros aparecem marcas características tanto na linguagem, quando ele utiliza palavras como “sindroma” ou “patologia”, como na maneira de expor a história, para o autor tudo tem uma causa e a decadência moral das pessoas é vista como uma patologia. A ideia de causalidade necessária aparece na discrição da “paixão sindromática” do Barão de Lavos, pois o autor explica que ele é de uma família cujo antepassado foi o filho ilegítimo de um rei. Assim, a imoralidade da personagem deriva do seu passado e não aparece por acaso.
Como já foi referido, o livro é uma espécie de crítica social que expõe à superfície todos os defeitos que a nossa sociedade tem, mas esconde por baixo da mascara de hipocrisia. Ao longo do livro percebemos que muitas personagens não são inocentes, mas pelo contrário, iniciaram uma certa decadência moral. O Barão de Lavos, D. Sebastião, é o caso mais flagrante – um homossexual (ou bissexual), sedutor que não controla os seus vícios e paixões animais, no final do livro é totalmente arruinado como personalidade, perdendo seu estatuto social e económico, o que o leva a roubar dinheiro ao seu amigo. A sua esposa, D. Elvira, que acaba por trair o seu marido. O Eugénio, que não só vende o seu corpo, mas também roubou no passado e explora o Barão economicamente para sustentar sua amante. E por último, toda a sociedade, que apesar conhecer o vício do Barão aceita-o enquanto ele é útil, mas acaba por ignora-lo quando ele perde o seu capital. A sociedade releva toda a sua hipocrisia e a maneira mesquinha de ser, as normas morais parecem ser muito relativas, pois quem tem dinheiro não é obrigado a cumpri-las.
A sociedade não aceita facilmente as diferenças. Assim, a homossexualidade era considerada uma doença até ao ano 1987, quando a organização mundial de saúde retirou-a da lista de doenças e patologias. No entanto, a sociedade importa-se mais com o aspecto económico e não com aquilo que as pessoas são efectivamente.
As normas sociais e morais são efectivamente muito relativas, pois variam de sociedade para a sociedade e consoante a época. Relembrando, a homossexualidade na Grécia Antiga era uma prática social considerada normal e, por vezes, preferível ao amor entre homem e mulher. Hoje em dia há países onde os homossexuais podem casar-se, pois tal atitude é socialmente aceite, mas em muitos países árabes as práticas homossexuais são puníveis pela lei.
Comparando a sociedade do século XIX e a sociedade do século XXI parece que todo o avanço tecnológico e científico não alterou efectivamente nada, pois, a sociedade capitalista e consumista preocupa-se em primeiro lugar com os benefícios económicos. A pobreza, a imoralidade e a hipocrisia são únicas características que não se alteram, infelizmente. Nesta perspectiva, a obra apresenta uma intemporalidade, pois tudo se altera menos a mente das pessoas.
Deve-se notar que o autor utiliza uma linguagem muito elaborada e a maneira como ele escreveu torna o livro muito agradável para a leitura. As descrições que o autor faz são muito pormenorizadas e reais. As personagens também foram cuidadosamente elaboradas e desenvolvidas. Podemos concluir que não são personagens planas como as personagens tipo de Gil Vicente, desenvolvem-se e modificam-se, embora representam os pecados e a amoralidade da sociedade. O estatuto e a educação do Barão de Lavos contradizem com a sua paixão sindromática e o sentimento estético pervertido. Parece que é um homem que se transforma num animal controlado pelos seus vícios e instintos. Todas as personagem ilustram a natureza contraditória e animal do Homem, todos respeitam as normas morais enquanto é do seu interesse, mas quebram-nas quando é lhes favorável, demonstrando o espírito de amoralismo.
Deste modo, a obra leva o leitor a uma reflexão sobre a sociedade e a natureza humana. É um apelo à consciência humana. Pessoalmente, recomendo a leitura desta obra, pois apresenta uma crítica social muito profunda, sendo quase uma reflexão filosofica.

Anastasiya Strembitska



[AS1]
Ø 1891 - O Barão de Lavos
Ø 1898 - O Livro de Alda
Ø 1901 - Amanhã
Ø 1907 - Fatal Dilema
Ø 1910 - Próspero Fortuna



[AS2]As regras morais são normas que a sociedade institui. No entanto, nem sempre todos respeitam estas normas, pois a própria natureza do ser humano leva o Homem quebrar as regras. Os seus instintos, desejos e ilusões, frequentemente, sobrepõem-se à moral. Isto leva ao desenvolvimento da hipocrisia, pois a queda moral afecta não só os que quebram as normas, mas também aqueles que o deixam fazer ou fecham os olhos perante a imoralidade. Em última análise a sociedade degrada devido à conivência dos humanos que ignoram a imoralidade. Assim, o efeito da hipocrisia é a degradação moral, é o processo da pathologia social que gera um ciclo fechado onde o efeito amplia a causa.